Winelicious – Qual a importância do terroir em um vinho? É realmente perceptível a sua influência no produto final?

Roberto Cipresso – Sempre acreditei que o terroir – entendido como a interação única e inimitável entre factores climáticos e elementos que constituem o terreno de produção – tem que ser o ponto de partida para a criação, o projecto e a produção de todo vinho e represente um elemento imprescindível para que todo o projecto tenha uma identidade marcada, reconhecível e inatacável. O objectivo a ser alcançado, quando temos à frente um terroir de boa potencialidade, deve ser o de obter no vinho o seu reflexo mais fiel. Quando, por outro lado, o terroir não tiver características particulares ou não apresentar características dignas de nota, será então oportuno preferir a expressão das notas peculiares da variedade que decidiremos implantar.

W– Houve um notável incremento na qualidade dos vinhos brasileiros nas últimas décadas, os enólogos actualmente contam com melhores técnicas e novas tecnologias. Acredita que há ainda espaço para a sensibilidade e intuição desses profissionais nesta nova conjuntura? Será esta a verdadeira assinatura do enólogo na arte do vinho?

R C – A sensibilidade e a intuição do winemaker são, sem sombra de dúvida, da maior importância. Os progressos tecnológicos e a disponibilidade de recursos de vanguarda são muito úteis, mas devem ser considerados como instrumentos – cada vez mais exatos – para a obtenção de um objectivo. Para a definição desse objectivo e para a implantação do percurso necessário para alcançá-lo, são indispensáveis: a visão, a estratégia, as competências – e, portanto, a sensibilidade e a intuição – do winemaker.

W– De acordo com a sua experiência, o que distingue os vinhos brasileiros dos seus congéneres? Há alguma característica que os tornem verdadeiramente distintos, únicos?

R C – O Brasil tem uma extensão territorial muito ampla. Somente uma parte desse território tem condições de acomodar videiras, e dentro dele, algumas áreas têm uma verdadeira vocação para a viticultura, ou seja, possuem terroir com elevada potencialidade. Pessoalmente, sugiro apostar nas áreas geográficas um pouco mais extremas e mais frescas, em alguns casos, pela exigência de uma altitude maior, em outros, pela presença das brisas oceânicas.

W– Qual é o potencial enológico do Brasil? Quais as suas perspectivas para o futuro do vinho brasileiro? Acredita que há espaço para desenvolver novos produtos, inovar e lançar novas tendências no mercado internacional?

R C – Do ponto de vista estritamente enológico, vale o que foi respondido na pergunta anterior. À valorização das potencialidades expressivas dos melhores terroir do país, acrescentaria – em uma estratégia de trabalho bem calibrada e que contemple também os outros elementos que constituem a marca da empresa – todos os fatores capazes de dar riqueza e complexidade aos vinhos individuais e a todo o brand. Além disso, prestaria atenção talvez nos laços que sempre uniram o Brasil a Portugal e procuraria identificar uma espécie de interpretação “New World” do estilo de “fazer vinho” português.

W– Qual a sua apreciação sobre a imagem desses vinhos no mercado internacional?

R C – Acredito que ainda existam amplas margens de melhoria no que diz respeito ao estilo e à personalidade dos vinhos brasileiros, e que seja possível avançar para despertar a curiosidade do mercado internacional. Para um crescimento neste sentido, porém, deverá corresponder também um aumento do interesse por parte dos brasileiros em relação ao vinho e ao seu consumo. Os brasileiros, na verdade, devem ser os primeiros a acreditar nos próprios produtos, para produzir vinhos sensacionais e para divulgá-los da melhor maneira possível.

W– Sente que ainda há alguma rejeição por parte dos consumidores nacionais? Qual o trabalho que desenvolvem para conquistar a preferência dos brasileiros?

R C – Sim, repito, creio que o interesse dos brasileiros pelo vinho em geral e pelos vinhos produzidos no Brasil tenha boas perspectivas de crescimento, e que os consumidores brasileiros possam melhorar a própria conscientização nesse sector. Para atender às características e às exigências de um mercado interno neófito e curioso, a Bueno Wines decidiu produzir mais tipos de vinho e não limitar a sua variedade a poucos “grandes vinhos” de interpretação mais difícil.

W– Acredita que seja mais fácil fazer bons vinhos no Velho ou no Novo Mundo?

R C – É mais fácil produzir BONS vinhos no novo mundo; é mais fácil produzir GRANDES vinhos no velho mundo (onde, por “grandes” entende-se vinhos que tenham o poder de impressionar em profundidade e emocionar, que contam com territórios difíceis e culturas milenárias).

W– Agora nos aproximando do seu trabalho desenvolvido no dia a dia, o que tem, no seu entender, o terroir da Campanha Gaúcha de especial? Encontra na Bellavista Estate condições favoráveis para elaborar grandes vinhos?

R C – Absolutamente sim, tanto pela presença das correctas temperaturas e de boas diferenças térmicas, quanto pela excepcional qualidade da luz; em geral, existem as condições que permitem forçar de uma determinada medida o metabolismo da videira e obter, portanto, expressões mais profundas na uva e no vinho.

W– Dentre os vinhos que produz na Bueno Wines há algum que lhe desperte mais interesse ou que tenha representado um maior desafio elaborá-lo?

R C – Trata-se do vinho que ainda devemos apresentar ao mercado e do qual temos, no momento, somente as massas em envelhecimento/aperfeiçoamento. Trata-se um merlot “in pureza” cujo nome será “1836” – uma data historicamente muito importante para o Rio Grande do Sul, pois marca a independência da República Rio-grandense depois de uma rebelião contra o Império Brasileiro entre 1836 e 1845.

W– Há alguma casta que lhe seja predileta? A sua experiência profissional aponta alguma casta que tenha se adaptado melhor ao terroir brasileiro a ponto de se tornar a casta emblemática do país?

R C – A minha variedade preferida é o Pinot Noir, nas suas expressões mais elegantes e refinadas, como os melhores vinhos da Borgonha. Outra variedade que amo muito, porém, pelos seus requisitos de plasticidade e adaptabilidade, é certamente o Merlot, que considero particularmente apropriado às diferentes realidades vitivinícolas brasileiras na sua ampla variabilidade e pelo fato que estas últimas não são ainda muito conhecidas (no que se refere às suas expressões no tempo e a longo prazo). Ainda, no que diz respeito ao Brasil, como já mencionado anteriormente, eu me deixaria inspirar pela tradição portuguesa e me reconectaria a ela, oferecendo, porém, uma espécie de reinterpretação do Novo Mundo.

W– Para finalizar, o que diferencia a Bueno Wines no mercado brasileiro?

R C – Agora a Bueno Wines produz vinhos de caráter e identidade mais marcantes com relação ao passado, e também em relação à média dos produtos da zona de pertinência. Estamos concentrados em obter produtos que estejam à altura de durar muito tempo e que tenham a capacidade de transmitir emoções do seu ambiente e do seu tempo para gerações diferentes daquelas que os produziram.

Assinatura Natália